O Central no Jogo de Voleibol


Foto Sporting CP - link


O jogo europeu da segunda mão dos oitavos de final da Taça CEV Challenge, frente à equipa checa do Kladno VCZ, deu-me a ideia de falar acerca da importância do central numa equipa de voleibol no momento ofensivo.
Para quem viu o jogo da primeira mão, o primeiro set foi um autêntico festim (já usei esta palavra várias vezes) de pontos para Andre Brown. Começou logo na primeira bola que o Sporting recebe: boa recepção, bola no Miguel Maia na zona 3 (junto à rede) e este chama logo o central ao jogo;  ataque rápido pelo centro da rede e ponto para Andre Brown!
A partir deste momento, a defesa do Kladno ficou de sobreaviso: sempre que houvesse uma oportunidade como a anterior, Miguel iria chamar o central ao centro da rede, com uma bola curta, para ele finalizar.


E o porquê deste factor ser tão importante?

Primeiro, a bola curta ao centro da rede, quando bem executada, é das mais eficazes no voleibol. Maioritariamente, é um lance de 1x1 ou 1x0, onde, não só o central adversário tem dificuldade em coincidir com o timing do remate (geralmente um movimento muito rápido de braço) do seu adversário mais directo, como tem uma grande área de bloco para cobrir, pois o central pode sempre desviar o seu remate mais para a direita ou para a esquerda; se o blocador abrir os braços, o atacante coloca a bola pelo meio dos mesmos...
Segundo, e factor importantíssimo, a movimentação do central para o ataque ao centro da rede, fixa no centro da mesma um dos blocadores adversários (normalmente até o mais alto), evitando, assim, que este possa ajudar os seus colegas a fazer um bloco duplo nas pontas. Se juntarmos a isto um bom distribuidor com boa  leitura de jogo (os distribuidores vêm o posicionamento dos bloqueadores adversários, e não só, antes de passarem a bola), está criado o cenário perfeito para que, quer na entrada da rede quer na saída da rede, os atacante tenham uma situação de 1x1 ou 1x0, o que lhes permite uma elevada taxa de sucesso no ataque. 
E foi isto mesmo que Miguel Maia fez no primeiro set frente ao Kladno. Ao chamar consistentemente Andre Brown ao centro da rede para a bola curta, criou imensas situações de 1x1 para Dennis à saída da rede; situações essas que o cubano finalizou na grande maioria das vezes, terminando o jogo com 20 pontos! Andre Brown foi o segundo melhor marcador com 12 pontos. Estes factores têm ainda mais importância, quando vemos que a equipa dos checos era extremamente alta, tendo vários elementos acima dos 2m (um dos distribuidores tinha 2m, por exemplo), sendo que o seu elemento mais baixo, o líbero, tinha 1,90m, o que, em caso de bloco duplo ou até triplo, iria baixar consideravelmente as hipóteses de sucesso dos atacantes.

Na foto abaixo (e peço desde já desculpa por não ser actual e por não ser, provavelmente, o melhor exemplo que eu pretendia), conseguimos ter uma boa perspectiva do movimento do central e da posição dos bloqueadores adversários.
Nikolov, no centro da rede, recebe a bola curta vinda de Miguel Maia e o bloqueador central (B) não tem qualquer hipótese de o contrariar. A bola poderia ter ido igualmente para o Dennis (entrada da rede), que o mesmo blocador (B) não teria hipótese de chegar lá a tempo de ajudar o bloqueador mais à direita na foto (C), ficando Dennis com uma situação de 1x1. O mesmo seria válido para a saída de rede (onde nem se vê o atacante do Sporting na foto).




Ainda na imagem em cima, reparem na posição do Maia, próximo do centro do terreno de jogo e da rede (zona 3). Para que o central seja chamado a jogo, é necessário que exista uma boa recepção, de forma a colocar o distribuidor no sítio certo. É certo que bons distribuidores podem passar para o central distribuindo de outras zonas (já vimos o Maia a fazer isso atrás da linha dos 3m), mas nem todos o conseguem e é um remate bem mais difícil para o central, pois a bola vem detrás e não de frente para ele.

Outra das utilizações do central é servir de cortina ou chamariz, um pouco mais afastado do centro da rede.
Vejam bem o vídeo colocado por Marcel Matz, treinador do Benfica, no Twitter.



Na primeira situação, Zelão serve de chamariz para para o colega (Rapha) finalizar nas suas costas, com o bloco fora do lance (apesar de terem saltado, já foram tarde). Na segunda situação, o posicionamento do central (Wohlfahrtstatter) que faz o mesmo movimento de Zelão, mas a bola é distribuída para a saída da rede (lado oposto), onde Theo Lopes tem uma situação de 1x1 muito favorável para finalizar.  


Como retirar o central do jogo ou contrariar o ataque com o bloco?

Para isso, é necessário causar problemas na recepção ou servir para uma zona específica. Afastar o distribuidor do centro da rede, dificulta ou quase impossibilita a utilização do central, sobretudo se o distribuidor tiver que receber para lá da linha dos 3m.

Outra hipótese é servir curto. A chamada (movimento) que o central necessita de fazer, requer tempo e passada. É um movimento de grande coordenação entre o distribuidor e atacante e, quando o serviço é curto, isto é, quando a bola cai o mais próximo da rede possível, dificulta ou invalida a utilização do central.

Na foto abaixo, de um Sporting-Benfica, podemos observar o posicionamento habitual dos bloqueadores perante um ataque (os jogadores das pontas mais fechados, de forma a poderem ajudar no centro da rede, se necessário).




Se repararem bem no posicionamento das mãos do distribuidor do Benfica (Vinhedo) e o posicionamento do central, perceberão que aquele passe nunca irá para ele (Zelão), nem sequer para a saída da rede (onde está Mrdak(?)), mas sim para a entrada da rede (atacante que não se vê na foto).
É importantíssimo saber ler o distribuidor/atacantes e os seus movimentos corporais, para se poder antecipar o ataque adversário. Numa situação como esta, Dennis e Robinho terão que se deslocar mais para a direita, para formarem um bloco duplo perante o ataque do Benfica (provavelmente vindo de André Lopes ou Winters).
Como referi anteriormente, da mesma forma que o distribuidor lê a posição da defesa adversária (bloqueadores incluídos), para perceber se existe algum jogador mal posicionado e retirar partido disso, os defensores têm também eles a obrigação de saber ler o jogo e, sobretudo, o posicionamento dos seus adversários.
Obviamente que tudo isto é estudado ao detalhe. Equipas como Sporting ou Benfica sabem perfeitamente as zonas preferenciais de ataque de ambos os distribuidores e os locais de ataque e a forma como os atacantes gostam da bola, mas existem sempre improvisações e os grande jogadores conseguem, muitas vezes, encontrar soluções fora da caixa.

Existem muitas outras situações para a utilização do central, por isso, deixo-vos um vídeo com ataques pelo centro da rede, com exemplos para todos os gostos.




Nada disto é possível sem uma boa recepção! Uma boa recepção permite ao distribuidor ter as 4 opções de ataque em aberto, o que dificulta quem defende.
Estou sempre a bater nesta tecla: serviço e recepção!

Da próxima vez que forem ver um jogo de voleibol do nosso Sporting, tentem observar com maior detalhe estas movimentações que vos referi e irão perceber que  o voleibol é um jogo muito mais táctico e bem mais complexo do que aquilo que aparenta.


Saudações leoninas a todos.

tigas68


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